‘Antônio Papeleiro’, catador de recicláveis com 70 anos, afirma: “Trabalho para correr”

* Priscila Oliveira; Foto de capa: Hugo Keyler/Rumo Certo

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Vinte dos mais de 30 anos dedicados à reciclagem são conciliados com as corridas (Foto: Hugo Keyler)

Simples, batalhador e dono de um vigor capaz de deixar muita gente de queixo caído. Aos 70 anos de idade, Antônio Carlos da Silva, mais conhecido como ‘Antônio Papeleiro’, vive uma intensa jornada de trabalho – que, praticamente todos os dias, começa bem cedo, mas não tem hora para terminar. Criado no distrito de Dores do Paraibuna, em Santos Dumont, mas com residência fixa em Juiz de Fora, encontrou na coleta de papelão, garrafas pet, alumínio e outros materiais do gênero sua forma de sobrevivência.

Catador de produtos recicláveis com muito orgulho, se dedica a essa profissão há mais de três décadas e de cabeça erguida. Descobriu as corridas de rua e fez delas sua grande companheira, anos mais tarde. Quem o conhece sabe: ele não dispensa uma disputa em asfalto, mas gosta mesmo é de um bom desafio em meio à natureza. Com o esforço de seu exaustivo e igualmente recompensador trabalho, passou a percorrer o país inteiro atrás de aventuras na modalidade, tendo como meta especialmente as chamadas ultramaratonas. E agora se prepara para mais uma, considerada a mais difícil do gênero no Brasil.

“Vou correr o Desafio Praias e Trilhas, de 84km, em Florianópolis (SC), sábado e domingo. Fiquei nove anos em primeiro lugar por faixa nessa prova; agora quero ganhar dez vezes. A gente tem 22h para completar, só que 11h num dia e 11h no outro. O atleta é pesado quatro vezes – se perder muito peso de um dia para outro, nem larga de novo. Tem que recuperar pelo menos 70% do peso”, conta. A competição acontece neste final de semana, dias 23 e 24.

Pura superação

Acostumado a percursos pela capital catarinense, senhor Antônio quer se superar novamente. “Uma vez perdi 3,8kg no Praias e Trilhas, e me levaram no médico, mas, graças a Deus, me liberaram. Foi um esforço doido, mas tirei o 1º lugar. Meu melhor tempo lá até hoje foi 11h44min, em 2007. Lá é ‘brabo’; é ‘osso’ mesmo. Então, quero completar entre quatorze e quinze horas dessa vez”. E acrescenta: “Esse é o tipo de prova que eu mais gosto. Sempre é. Gosto de longa de distância”, revela.

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Pouco depois de vencer a faixa do Desafrio Urubici (52km), em Santa Catarina, o “Papeleiro” disputou a Meia de Juiz de Fora (Foto: Hugo Keyler)

Para conciliar trabalho e treinamento, nada melhor do que muita disciplina. “Corro há mais de vinte anos. Trabalho para isso. Quando está tudo pago, pego a estrada. Semana passada fiz um treino lá para minha casa em Santos Dumont. Fiz 15km indo, num dia, e 15km voltando, no outro. Meu treinamento é misturado com serviço. Faço 40km por semana. Nem sei quantas vezes corri este ano, mas fiz o Revezamento Volta à Ilha (140km, Florianópolis – SC) em abril, e o DesaFRIO Urubici (52km, Urubici – SC), em junho. Essa é a minha corrida preferida. Corro lá há sete anos e sempre ganhei na faixa”.

Parar, que nada

Focado nos desafios dentro e fora da modalidade, o “Papeleiro” só pensa em seguir adiante, com a mesma dignidade que o manteve firme até aqui. “Minha rotina de trabalho ajuda no treinamento, mas tenho que completar um para começar o outro. Meu currículo é de primeira qualidade – preciso fazer pelo menos uma maratona por ano. Sou prata da casa! Não penso em parar de jeito nenhum. Enquanto eu estiver em forma, vou continuar correndo”, encerra.

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