Atletas de referência avaliam participação feminina nas Corridas, MTB e Triathlon

* Priscila Oliveira

O mês de março chegou ao fim e, com ele, as comemorações e discussões sobre o empoderamento feminino tendem a diminuir. Ainda há muito o que se fazer e questionar quando o assunto é a participação da mulher em várias áreas, quebrando tabus e mostrando seu verdadeiro valor. Ela não deve ser lembrada e ‘comemorada’ apenas em 8 de março, afinal, continua por aí, se dedicando a uma série de tarefas ao mesmo tempo e buscando por um lugar ao sol, em diversas áreas.

Pensando nisso, nós, do Rumo Certo, convidamos três atletas de destaque para contar de que forma elas encaram a participação feminina em suas modalidades.

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Viviany Anderson: há trinta anos, referência nacional e internacional nas provas de fundo (Foto: Hugo Keyler)

Sinônimo de títulos nas corridas

Uma das principais referências quando o assunto é atletismo, mais especificamente corridas de fundo, a atleta Viviany Anderson, 47, comemora uma trajetória de títulos inesquecíveis, como medalha de ouro no Campeonato Sul-Americano, realizado em Vitória (ES), no ano de 1991; bicampeã da Maratona de São Paulo (1997 e 1998); campeã dos 5.000m no Troféu Brasil de Atletismo, em 1998; campeã da Maratona do Rio, também em 1998; medalha de bronze nos Jogos Pan-Americanos de Winnipeg, no Canadá, em 1999; e tricampeã da prova noturna de Santiago, no Chile. Ela ainda carrega no currículo uma série de participações na tradicional Corrida de São Silvestre, onde foi a melhor brasileira nas edições de 1997 e 1998, além de ter participado no Mundial de Meia Maratona, em 1992, na Inglaterra.

Mesmo com tantos motivos para comemorar, a juiz-forana, que também é treinadora e se dedica a projetos sociais com crianças, diz ter driblado muita desconfiança durante a carreira. ”Não posso reclamar – até porque, sou muito ‘brigona’. Sempre lutei muito pelos meus ideais. Quando comecei a correr, em 1987 (fiz uma meia maratona e depois, uma prova de 8km), uns dois ‘bobões’, na hora de treinar, falavam comigo: ‘Vai lavar roupa. Mulher tem que lavar um tanque de roupa, cuidar de marido…’. Bobeira de homem de bar. Mas, rapidinho, dei a resposta. Comecei a ter meus resultados e, quando chegava com meus troféus, eles percebiam que eu não estava para brincadeira”, revela.

Superados muitos obstáculos, a atleta acredita que lugar de mulher é onde ela bem quiser. “Acho que a mulher não deve se acomodar. Somos heroínas, por trabalhar, cuidar dos filhos, da casa, de tanta coisa… Não é possível que ainda temos que lutar por nosso espaço. Isso é inaceitável”.

Sucesso no mountain bike

Referência no Cross Country Olímpico, mais conhecido pela sigla XCO, tendo participado e atuado com louvor no Sul-Americano de Medellín, na Colômbia, em 2010; no Mundial e Mundial Team Realy, ambos em Champéry, na Suíça, em 2011; no Mundial de Rotorua, na Nova Zelândia, em 2006; e no Mundial de Château D’Oex, também na Suíça, em 1997; Roberta Stopa (Soul Cycles/No Limits Team), 37, já competiu em boa parte do mundo em cima da bike. A paixão e dedicação ao mountain bike a levaram para lugares como Estados Unidos, México, Argentina, Colômbia, Guatemala e Equador.

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Roberta Stopa: bodas de prata com o esporte, com direito a uma série de competições no mundo inteiro (Foto: Hugo Keyler)

Campeã Brasileira da modalidade em 2012, a atleta e treinadora ainda se orgulha do bicampeonato nacional de XCM (maratona, 2006 e 2012) e do primeiro grande título da carreira: o de campeã Brasileira de Downhill, em 1999. Mas, quem pensa que essa galeria é feita apenas de conquistas está enganado. Se destacar num universo até hoje composto na maioria por homens sempre foi um desafio à parte. “A luta é árdua, mas a evolução dentro do MTB já pode ser vista e comemorada. Quando comecei tínhamos apenas 1 categoria feminina; hoje temos as divisões por idade, investimentos, novos talentos e valorização da ‘velha guarda’. Lutei muito para que isso pudesse acontecer. Sou Elite desde que eu era Junior e hoje vejo nossa modalidade e categoria ganhando o cenário internacional de forma gradativa e evolutiva. Com certeza, teremos muitas surpresas daqui para frente”.

Para Roberta, que é treinadora de mountain bike e tem no público feminino o maior de suas aulas, é preciso analisar o contexto atual olhando para muito além dos atletas profissionais. “O mundo dos amantes das bikes tem crescido absurdamente. Temos muitos ciclistas e entusiastas do esporte pedalando cada vez mais, seja por lazer, bem-estar, cicloturismo ou, até mesmo, em competições. Isso me deixa muito feliz, porque amo o que faço como atleta profissional e treinadora. Me sinto embaixadora da bike, por levar a prática dessa atividade às pessoas durante meus 25 anos de carreira”, enfatiza.

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Yvone Berg: entre outras coisas, mãe, esposa, professora de educação física, corredora, ciclista e nadadora (Foto: Hugo Keyler)

Missão: conciliar triatlhon e 1001 tarefas

Aos 48 anos, a professora de educação física Yvone Berg é uma verdadeira potência em conciliar sua vida profissional, familiar e esportiva. Representante da equipe SaúdePerformance, ela se orgulha por ter conseguido unir seu o por corrida e ciclismo com a natação. Não foi fácil, mas, com o apoio do marido e também triatleta Fabiano Bastos, com quem já comemora ‘bodas de prata’, esse universo foi se tornando cada vez mais fascinante. “Fazia duathlon e, para o triathlon, foi um pulo. Foi uma mudança bacana e que me tirou da rotina de só correr e pedalar. Consegui incluir a natação nos treinos e minha primeira prova na modalidade foi o XTerra, em 2009. Naquela época, a única triatleta da cidade era a Beatriz Holanda (in memorian). Com certeza aumentou muito o número de mulheres no esporte, mas ainda existe uma grande dificuldade, principalmente para nós, que somos amadoras. É preciso conciliar todas as atividades: trabalhar, cuidar da casa, da família, trabalhar e ainda tirar tempo para treinar”.

Destaque no Campeonato Carioca pelas modalidades Sprint (750m de natação/ 20km de ciclismo / 5km de corrida) e Standard (o chamado triathlon olímpico: 1,5km de ntação/ 40km de ciclismo/ 10km de corrida), onde chegou ao título de campeã por faixa etária e 9º lugar geral em 2015, ela sonha em completar uma prova de Endurance  (nadar 1.500m/ pedalar 60km/ correr 15km) e ainda disputar um meio Ironman (1,9km de natação/ 90km de ciclismo/ 21,1km de corrida). Para isso, não nega os grande desafios. “O triathlon, de um modo geral, requer uma ‘força bruta’. Não pode ter ‘frescura’, pois estamos expostas a quedas, machucados, cicatrizes, ressecamento da pele, do cabelo etc. – o que não quer dizer que as mulheres perdem sua feminilidade, ao contrário do que muita gente pensa”, pondera.

Mesmo com tantos obstáculos, ter chegado até aqui já é uma vitória. “Preciso destacar que o triathlon é um esporte relativamente caro, o que também dificulta nessa adesão feminina. Às vezes me pergunto se ele ainda vai se tornar mais acessível, porque tudo é muito caro. Infelizmente, parece difícil de ser popularizado. Em casa mesmo, como somos dois para competir, é preciso planejamento. De qualquer forma, considero o aumento do número de mulheres no esporte excelente. Isso só mostra, mais uma vez, o quanto somos capazes de nos dividir e exercer várias tarefas ao mesmo tempo. Somos fortes. Somos guerreiras”.

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