Corredora que superou o câncer de mama comemora: “A minha vontade de melhorar era muito grande”

*Reportagem: Priscila Oliveira

Não é de hoje que a juiz-forana Adriene Orsay (ProFit Running), de 47 anos, chama atenção a cada performance nas corridas de rua. Porém, muita gente nem imagina que, por trás dessa atleta de elite do Ranking de Juiz de Fora, está uma mulher que também dá show fora das pistas – e que construiu uma linda história de superação após receber o diagnóstico do câncer de mama, seis anos atrás. Hoje, ela faz questão de mostrar para todo mundo que é possível, sim, enfrentar a doença e seguir em frente, com muita maestria, coragem e vontade de viver. Esse é o relato que nós, do Rumo Certo, decidimos retratar em comemoração ao Outubro Rosa e às vésperas da Corrida Solidária da Ascomcer, que levanta a bandeira dessa campanha tão importante de combate e prevenção a cada temporada.

“Antes eu só malhava e corria na esteira de academia. Em agosto de 2013, consegui juntar uma grana e queria realizar o meu sonho: colocar silicone. Quando você tem 40 anos e vai fazer essa cirurgia plástica, precisa fazer mamografia e ultrassonografia. Nessa época, eu já estava sentindo um carocinho (ele era palpável), que foi detectado na ultrassonografia, só que ele era muito redondinho, muito bom e o meu mastologista disse que teria 2% de chance de ser maligno. Então decidi fazer a cirurgia, colocar o silicone e tirar esse caroço de uma vez”, lembra.

Adriene Orsay começou a correr em 2014, sete meses após iniciar o tratamento. No ano seguinte, ela já estava na elite do Ranking de JF, onde permanece até hoje (Foto: Hugo Keyler/arq. Rumo Certo)

Três meses depois, quando já esperava receber alta do procedimento, a atleta descobriu um carcinoma ductal infiltrante, confirmado após a biópsia do nódulo. “Ele tinha nome, sobrenome, identidade e até CPF”, brinca. “Como eu já havia feito a prótese, foi uma luta saber se o câncer já tinha se espalhado, qual era a gravidade dele e qual seria o melhor tratamento. Por isso, comecei a fazer vários exames. Descobri que eu tinha progesterona forte e, por isso, era uma paciente boa para fazer quimioterapia oral. Os médicos até chegaram a procurar qual seria o melhor lugar do meu corpo para tirar um filete e reconstruir a mama. Mas não precisou disso. Fiz quadrantectomia, o médico me deu uma semana para retirar o dreno, mas ele já tinha secado no dia seguinte. A minha vontade de melhorar era muito grande. Com um mês, eu já estava recuperada. Com dois, fui liberada para continuar a malhar. Em seguida, eu já podia correr”.

Boa alimentação e atividade física regular foram alguns dos aliados no progresso contra a doença. “Comecei o tratamento em março de 2014 e, em outubro, já estava ganhando minha primeira corrida na faixa [etária], nas 15 Milhas da Conquista. Quando começava a correr, eu me sentia viva, e queria sentir isso de novo. Então, comecei a ir nas corridas e a gostar dessa vibe. Pouco tempo depois, percebi que era boa nesse esporte e decidi continuar. Corri todas as provas do Ranking em 2015, comecei a pontuar e, em 2016, fui para a elite. Fui a primeira colocada da minha faixa em três temporadas e, em 2018, fiquei em 9º geral nessa posição, onde continuo atualmente. Acho que isso foi fruto da minha vontade de superação e de contar uma história boa para as pessoas que vivem isso hoje”, reitera.

A corredora destaca alguns momentos marcantes que viveu no esporte. “O melhor para mim foi, em 2018, estar em 9º lugar geral do Ranking feminino, porque antes eu era uma paciente oncológica que não tinha muita chance de vida. E, em outro momento, eles estavam me chamando de atleta. Eu estava ao lado de meninas muito ‘voadoras’, que correm muito. Então, esse troféu de 2018 e todos os outros que ganhei no Ranking são muito mais do que isso. É a vitória para a minha vida! Eu quero levar essa história para todo mundo, falar disso o tempo todo, porque eu sei como é ruim não ter esperança e se agarrar a qualquer resultado bom. Isso fez toda a diferença  para mim, porque, quando você recebe esse diagnóstico, vai ficando mais fraca a cada dia. Ao seu redor, vem os pensamentos ruins, de que você vai morrer, vai tirar o seu peito, vai perder o cabelo. Porém, depois que você está lutando pela vida, isso não faz a menor diferença. Se sentir mulher é mais forte do que qualquer coisa”.

Ensaio fotográfico com o marido, Alexandre Menigatti, retratou a simbologia da doença e as conquistas esportivas da atleta (Foto: arquivo pessoal)

Seguindo em frente

Adriene conta que, além de fazer radioterapia, optou pela quimioterapia oral ao invés da intravenosa. Por isso, o tratamento continua e tem previsão de ser encerrado em 2024. “Os médicos queriam que eu fizesse a quimioterapia intravenosa, porque eu teria 96% de chance de não morrer da doença. Se eu não fizesse, teria 92%. Então, resolvi não fazer, porque eu confio no meu Deus, eu confio na minha força. E, se eu tinha 2% de chance de ter a doença, mas tive, o que é uma probabilidade diante da minha fé? Então, eu não fiz, e estava certa”, ressalta.

E complementa: “Receber o diagnóstico de câncer é praticamente uma sentença de morte. A doença tem uma energia pesada. Eu e a minha família sentimos isso. Estava todo mundo muito abalado. Meu marido [Alexandre Menigatti] tinha perdido a mãe seis anos antes, com câncer. Então, quando eu estava no mastologista, ele virou para o médico e falou: ‘Doutor, pouco me importa se a minha mulher vai ficar sem o peito, sem o cabelo. Eu só preciso que ela siga comigo. Eu não consigo seguir sem ela’. Então, eu tinha que manter o pensamento e as forças para a minha família e com ele. Teve um dia que eu fui ao médico sozinha e desabei, e o médico me meteu o fumo, perguntando por que eu não estava com ninguém, e eu respondi: ‘Doutor, porque eu preciso que eles sejam fortes. E eu falo para eles que isso é muito fácil para mim. Que eu vou superar. E eu preciso que eles acreditem nisso, porque senão eles vão adoecer também’. E foi assim que eu consegui vencer”.

Orgulhosa por construir uma trajetória que inspire outras pessoas, a juiz-forana veste a camisa do Outubro Rosa neste domingo, durante a corrida da Ascomcer (Foto: Hugo Keyler/arq. Rumo Certo)

Nova história

Orsay salienta que um dos principais motivos para manter a cabeça erguida no combate ao câncer foi a possibilidade de passar sua experiência adiante. “Procurei escrever uma história de esperança, uma história que eu pudesse olhar e falar: ‘Alguém teve uma vida melhor, não uma sobrevida’. E eu não encontrava essas histórias. Esse desejo de contar o que passei para todo mundo é para inspirar quem recebeu esse diagnóstico e suas famílias. Hoje, a minha vida é muito melhor. Eu sou mais veloz do que antes do câncer. Foi muita vontade de melhorar, de levar esperança aos outros. Tudo o que eu queria era encontrar uma história de esperança, e não encontrava. Então, fiz a minha própria história”, enfatiza.

Com a missão de fazer acompanhamento médico todo ano, a atleta não esconde a apreensão de viver toda essa experiência novamente, mas mantém a certeza de que, aconteça o que acontecer, estará sempre disposta a se superar. “É um terror, é um medo fora de série, porque tem que repetir tudo aquilo – de fazer o exame e ficar pensando se escapou alguma coisa, se eu vou ter câncer de novo. Mas, não é possível viver com tanto medo. Se acontecer, vou passar por isso de novo, pronto e acabou. Hoje eu estou aqui. Fiz radioterapia, tirei um pedaço do peito e estou com o meu cabelo. Não tem que ficar com pena. É possível superar a doença. O céu é o limite! É muito bom as pessoas saberem que nem os próprios médicos sabem o quanto seu corpo, sua mente e sua fé são capazes de superar qualquer dificuldade. Você não pode parar por causa de um diagnóstico”.

A cada dia, um novo capítulo dessa trajetória é construído. Entretanto, um dos mais especiais volta a se repetir neste domingo, 27. “Participar da Corrida da Ascomcer dá uma motivação a mais e é muito emocionante, principalmente quando eu passo da largada. Em 2016, nós ganhamos em 3º por equipes – eu era da Loucos por Corrida. Só que eles premiaram errado e me chamaram para receber o prêmio na Ascomcer. Foi um momento muito emocionante, porque era ali que eu ia fazer radioterapia, com pouca esperança. Chegava sete e pouca da noite, saía onze e meia, uma e meia da manhã. Às vezes, nem conseguia fazer, porque são apenas três máquinas. Então, voltar lá para receber um prêmio como atleta significou muito. Correr bem, ficar bem posicionada e completar a prova deles é muito importante para mim, desde a largada até a chegada. Passa um filme na minha cabeça. Tenho que me segurar muito para não chorar. É uma pegada top”, encerra emocionada.

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