‘El Cruce’: Um desafio na Cordilheira dos Andes

Numeral 1 me colocou momentaneamente em evidencia

O ‘nº 1’ me colocou momentaneamente em evidência (Foto: Divulgação / El Cruce)

Estou de volta em casa após o primeiro compromisso esportivo do ano, estive em San Martin de Los Andes, entre os dias 8 e 13 de fevereiro, disputando a 15ª edição do evento El Cruce de Los Andes, corrida em montanha com aproximadamente 100kms, divididos em 3 etapas.

Cheguei a San Martin como o atual campeão na categoria Solo. Minha meta era manter o título para o Brasil, porém, já sabia que a tarefa não seria fácil, pois uma legião de europeus, bem como os donos da casa, os argentinos, também tinham o desejo pela vitória. Mas, isso não me desanimou, uma vez que me sentia preparado para o desafio.

Noite de emoção e primeira etapa

As festividades começaram logo no dia 9 de fevereiro. Tivemos a abertura oficial do evento no início da noite, com apresentação de uma banda de música e desfile das bandeiras nacionais que representavam cerca de 30 países. Eu fui o responsável por transportar a bandeira do Brasil – um momento que me relembrou a vitória de 2015 e me deixou emocionado. Passado esse instante, foi hora de escutar atentamente as informações técnicas de cada dia, feitas pelo organizador. São detalhes importantes, que, no final, fazem toda diferença para o desenrolar da disputa. Após essa atividade, fui para a casa onde estava hospedado. Queria me concentrar para o início da prova, que aconteceu dia 10 de fevereiro, com largada às 07:30 da manhã.

No primeiro dia, tivemos uma distância de aproximadamente 40km para percorrer. Foi a etapa mais longa das três programadas. Apesar da larga distância, a velocidade foi um fator determinante para o primeiro terço da prova; logo pegamos uma boa serra para “escalar”. Em seguida, uma descida veloz e técnica. Nesse momento, já nos encontrávamos próximo do quilômetro 21. Consegui chegar nesse ponto junto com os líderes.

Saltando sobre as pedras em um pequeno riacho

Saltando as pedras de um pequeno riacho (Foto: Divulgação / El Cruce)

Estávamos num pelotão com cerca de 8 atletas, porém, daí para frente, o ritmo voltou a subir, o pelotão se fracionou e eu não consegui me manter entre os ponteiros. Terminei essa primeira etapa na 6ª colocação geral, mas perdi muito tempo para o italiano Marco de Gaspari. Apesar da diferença de tempo para o líder, ainda era possível tentar mudar o cenário. Procurei descansar bastante e focar na segunda etapa.

Segundo dia: motivo para continuar 

Veio o segundo dia. Meus músculos apresentavam uma recuperação satisfatória – assim, tive a certeza de que estava em condições de continuar na disputa. Nesse dia, iríamos percorrer 28km, porém, seria uma jornada bem técnica, principalmente nos primeiros 5 quilômetros, onde fizemos várias entradas no Lago Lácar, que tem seu contorno tomado por pedras de todos os tamanhos e muitas árvores caídas. Larguei novamente junto dos dois primeiros e assim fomos serpenteando as trilhas molhadas e técnicas.

Uma fila indiana se formou e não demorou muito para o pelotão se fracionar novamente. Consegui correr junto com uma dupla de argentinos, mas logo abri vantagem sobre eles. Mais uma vez, os líderes conseguiram  se distanciar. Terminei essa etapa em 7º lugar e, já no acampamento, quando saiu a classificação com a soma dos dois dias, percebi que não seria possível conquistar o segundo título. Em contrapartida, visualizei a possibilidade de pódio. Me mantive na 6ª colocação geral e era o 3º na minha categoria de idade. Parece pouco para quem havia sido campeão no ano anterior, mas eu precisava de um estímulo para continuar brigando por posições.

Alguns trechos de estrada onde tivemos que acelerar bastante (2)

Alguns trechos de estrada, onde tivemos que acelerar bastante (Foto: Divulgação / El Cruce)

Estava cansado, assim como todos, e, no terceiro e último dia, teríamos pela frente a etapa mais difícil da prova. Assim, foquei na meta de não voltar para o Brasil de mãos vazias e fui dormir com um único pensamento: “quero um pódio amanhã”.

Terceiro desafio: pódio e destaque feminino 

O terceiro dia foi marcado por uma mudança no clima. Se nas etapas anteriores tivemos muito calor, essa seria nublada e com ventos fortes. Foram 32km de percurso, com subida de uma grande montanha logo no começo da etapa. Também foi o dia mais técnico de todos, com muitas pedras, terra de erupções de vulcão e cascalho, muito cascalho – inclusive, eu tive que fazer duas paradas para “esvaziar” os tênis.

Nessa etapa, muitos atletas que estavam bem atrás na colocação geral deram suas caras. Um enorme pelotão se formou na escalada principal do dia – em determinado momento da prova, eu estava muito atrás, porém, fui ganhando gradativamente até encostar no argentino que poderia me tirar do pódio, Gustavo Reyes; um atleta forte e conhecedor como poucos da técnica em descida. Ele conseguia abrir pequenas vantagens nos trechos técnicos, mas eu logo encostava novamente. Foi uma briga intensa nos últimos 10 quilômetros. Eu tinha pouco mais de três minutos de vantagem sobre ele. Sendo assim, não poderia vacilar, pois essa diferença numa prova de montanha é muito fácil de se eliminar.

No final, Gustavo cruzou a linha de chegada em 7º geral e eu, apenas 9 segundos depois dele, em 8º. Dessa forma, consegui me manter entre os 6 primeiros na classificação geral e manter esse pódio para o Brasil. Representando nosso país na categoria Elite Feminina, a atleta que também faz parte da equipe que represento (Kailash Tem LAF), Letícia Sartori, foi vice-campeã geral.

3 colocado na categoria ate 40 anos e 6 no geral

3º colocado na categoria até 40 anos e 6º no geral (Foto: arquivo pessoal)

Intercâmbio pela evolução

Para mim, essa edição do El Cruce teve um nível técnico altíssimo, onde alguns dos melhores corredores de montanha do mundo estiveram alinhados, disputando posições passada a passada. Com os atletas amadores, como eu, situações assim são importantes para um intercâmbio positivo em prol da nossa evolução esportiva. Voltei da Argentina com a cabeça erguida, pois sei que fiz meu melhor, ainda que meu melhor tenha sido apenas um 6º lugar.

Para terminar, também posso dizer que aprendi muito com essa edição e que, em breve, terei condições de medir forças com os melhores novamente. Quem sabe, até lá, eu possa estar numa posição ainda melhor…

Gostaria de agradecer imensamente pelas mensagens positivas e vibrantes de todos que torcem por mim e aos meus patrocinadores: Clube Dom Pedro II, Unimed Conselheiro Lafaiete, CHB Equipamentos, Plastipel Embalagens, Kailash, Tênis Skechers e Bem Natural em grãos.

Clique AQUI para saber mais sobre o El Cruce 2016.

Um comentrio
  1. Ernani
    Fevereiro 25, 2016 | Responder

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