Felipe Lima: Um atleta cadeirante com 15 anos de corrida

* Priscila Oliveira; Foto de capa: Hugo Keyler

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O atleta cadeirante ainda criança, numa de suas primeiras corridas (Foto: arquivo pessoal)

Chegar à marca de quinze anos de corrida não é fácil, principalmente quando se é jovem e a vida impõe um obstáculo natural, transponível penas por pessoas que tem a capacidade de “fazer do limão uma limonada” e seguir em frente, batalhando pelo incansável sonho de se superar sempre, e cada vez mais. Com o atleta cadeirante e estudante de Educação Física, Felipe de Souza Lima (Clube Bom Pastor), 24, é exatamente assim – e lá se vai uma década e meia de amor ao esporte, comemorada com uma confraternização entre amigos e colegas de equipe na 68ª Corrida da Fogueira de Juiz de Fora, no último dia 11.

“Antes de começar a correr, eu via as notícias da Corrida da Fogueira pela televisão. Já tinha ouvido falar muito da Viviany Anderson e visto as corridas dela fora da cidade. Ela foi minha referência para começar a correr e, para mim, esses 15 anos significam muita coisa: alegria, superação e liberdade. Este ano, comemorei com muita emoção, lágrimas e suor. É  a corrida que mais sou apaixonado, pois foi nela que estreei, com apenas 9 anos de idade”, contou.

Motivação sem limites

Além de bater seu próprio recorde na prova em relação ao ano passado, baixando o tempo de 48 minutos para 26 minutos, Felipe foi o primeiro atleta Portador de Necessidades Especiais a cruzar a linha de chegada e ainda ajudou seu grupo a vencer entre as equipes PNEs masculinas da corrida mais tradicional da cidade, da qual calcula ter participado pelo menos treze vezes. Campeão da categoria Cadeirante no Ranking de Corridas de Rua desde que começou a competir, ele também esbanja velocidade numa ‘hand bike’ (bicicleta de mão, em tradução livre) – equipamento que substituiu sua fiel companheira de rodas no início desta temporada.

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Com a mãe, Eny, sua grande incentivadora, na premiação geral do Ranking, em 2014 (Foto: Hugo Keyler)

Determinação, força de vontade, apoio da família, dos amigos e uma série de outras características são o combustível que move todo essa trajetória de vida, e, principalmente, de amor ao esporte. “O que me motivou a continuar na corrida foi o exemplo de outros atletas com a mesma deficiência que eu nos Jogos Paralímpicos, trazendo medalha para o Brasil, inclusive em vários campeonatos mundo afora; o país sendo bem representado; o incentivo da minha família; de grandes professores de Educação Física que tive; e de treinadores, que, mesmo não me treinando mais, se tornaram grandes amigos. Hoje, minhas maiores motivações são o amor ao esporte, à minha vida, o apoio dos meus familiares e de todos que fazem parte desses 15 anos de carreira”.

Chegar a competições fora da cidade e até fora do país estão entre suas grandes metas para o futuro. “Pretendo representar Juiz de Fora, Minas Gerais e o Brasil – não apenas para ter nome no esporte, mas para ter condições de ajudar minha família. Estou satisfeito até aqui, porém, ainda quero superar meus limites, crescer dentro da corrida e na vida. Acho que posso ser um exemplo a ser seguido, mas as pessoas também tem que correr atrás de seus objetivos; elas não podem ficar paradas”, ressalta.

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Junto aos colegas do Clube Bom Pastor na Corrida da Fogueira 2015, durante premiação das equipes PNEs (Foto: Hugo Keyler)

Consciência coletiva

Enquanto essas oportunidades não chegam, Lima chama atenção para a prática esportiva por pessoas com deficiência. “A inclusão é um caso muito raro na cidade. Ainda precisa ter um incentivo maior nesse sentido. Na primeira Fogueira que corri, por exemplo, um garoto que estava na rua, assistindo, debochou de mim. Já sofri muito preconceito na vida também e fui chamado de ‘aleijado’ várias vezes. Na faculdade mesmo, um aluno de outro curso achou que eu não seria capaz de me formar em Educação Física pelo fato de ser cadeirante. Sempre aceitei minha deficiência e nunca deixei que a depressão ou a própria deficiência tomassem conta de mim”.

O atleta destaca que o esporte é um grande aliado em seu amadurecimento pessoal e na luta pela conquista de cada objetivo. “A corrida abriu vários horizontes na minha vida. Inclusive, também me ajudou a auxiliar outras pessoas, com deficiência ou não, a saírem do comodismo, da depressão; a gostarem mais de si mesmas e batalhar pelo que querem. Correr ainda me fez ganhar muitas amizades durante esses 15 anos – amizades essas que vou levar para sempre comigo, no meu coração”, encerra.

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