Mais jovem a vencer ultra acima de 250km afirma: “Basta fazer por amor e acreditar”

*Reportagem: Priscila Oliveira

Foram 300km entre Tiradentes, no Campo das Vertentes, e Passa Quatro, no Sul de Minas. Uma prova completada em 52h03min, ao longo de quatro dias, sendo mais de 45 horas em ação e apenas 30 minutos de descanso para alcançar a realização de um sonho: se tornar o mais jovem a completar uma ultramaratona acima de 250km. Um feito e tanto do atleta Juan Pablo Oliveira (Luiz Bastos Performance Esportiva/Hy Brazil), que completou 25 anos no meio de todo esse trajeto e mantém viva a emoção pela vitória inédita no Desafio 300, realizada entre os dias 21 e 24.

Juan Pablo Oliveira completou desafio de 300km entre Tiradentes e Passa Quatro em 52h03min (Foto: arquivo pessoal)

“Tudo saiu melhor do que o planejado, mas não tinha ideia de que eu sofreria tanto na primeira noite. Choveu muito até Trairuba (uma fazenda antiga). Além de ser gigante, ela ainda tinha uma pequena vila ao lado. Tive que usar uma estratégia desde o início: caminhada e corrida. Depois dessa fazenda, comecei a me encontrar na prova”, lembra.

As primeiras palavras de incentivo recebidas pelo representante de Santos Dumont durante o percurso vieram de um amigo, igualmente inscrito na competição. “Ele me dizia que eu estava muito bem e para ter paciência, que ainda teria muito chão pela frente. Fiz massagem nas minhas pernas e as aqueci. Dessa forma, encaixei um bom ritmo. Quando amanheceu, a galera que puxou no início parou para dormir. Assim, pude pegar um por um. No Km 150, assumi o 3º lugar, me levantando muito na prova”.

Superação

Passando pelo sexto dos dez postos de controle do trajeto, em Cruzília, próximo do Km 163, Juan descobriu que estava a cerca de duas horas dos dois primeiros. Quando chegou a Caxambu, no Km 200, a boa notícia: a diferença para eles tinha abaixado para 20 minutos. “Fiquei muito animado, mas não me preocupei em assumir a liderança. Segui no meu ritmo e, uns 10km à frente, apanhei o 2º colocado, que sentia muita dor e era massageado pelo apoio dele. O cumprimentei e segui adiante. Faltando 14km para chegar a São Lourenço, encostei no apoio do 1º colocado (Oraldo Romualdo) e, sabendo que ele é multi campeão, tendo participações até em mundiais, não tentei forçar para acompanhá-lo, porque isso quebraria meu ritmo facilmente”, ponderou.

Representante de Santos Dumont ficou mais de 45 horas sem dormir e descansou por apenas 30 minutos durante toda a prova (Foto: arquivo pessoal)

Dali até Pouso Alto, os dois foram se encontrando de tempos em tempos, até que o corpo do adversário passou a sofrer muito por todo o esforço feito até ali. “Apanhei ele novamente, numa subida, faltando 1km para chegar lá. Quando o vi mancando e todo travado, pensei: ‘Agora é hora de ir com tudo’, apesar dos 65km que ainda faltavam para o final da prova. Mesmo com o risco dele vir atrás de mim, mantive a coragem e fui embora. Poder passar um atleta do nível dele foi demais, me levantou muito”.

Após passar por Capivari, que contava com uma granja de frangos, foi chegando a Itamonte, tomado pelo sono e com muita dor nos joelhos, que veio outra informação animadora: o sandumonense já estava 3h à frente do 2º colocado, e Oraldo havia desistido da ultramaratona. “Então, era só fazer o dever de casa e completar”, avaliou.  Mas, não seria tão simples assim. Próximo a Itanhandu, o cansaço falou mais alto e a pausa foi inevitável. “Faltavam apenas 25km e eles foram feitos com o coração, na raça mesmo, porque meus joelhos gritavam. Sentia muita dor. Nos planos e subidas eu ainda estava um pouco melhor, mas, para descer, quase não conseguia andar. Para ajudar, faltando 7km, minhas bolhas começaram a estourar. Sentia dor no coração, mas aprendi que dor é superável”.

Sem limites

A fadiga era tão grande, que os 3km finais foram feitos em 1 hora. Ali a ficha começava a cair para Juan Pablo, que completou a disputa 4 horas abaixo do antigo tempo masculino, quase 60 minutos acima do recorde da prova, que é feminino, e 46 minutos à frente do segundo colocado. Para ele, situações adversas, como a única edição do Desafio 300 com chuva, coroaram ainda mais o título. “Agradeço demais à minha irmã, Josiane, que lutou comigo durante toda a prova, e ao meu treinador, Luiz Bastos, que me ensina muito. Sempre carregamos um lema na nossa equipe: diversão garantida! Além de vencer, pude mostrar que não tem limites para a idade. Muitos me criticavam e diziam que eu não podia fazer isso, mas acho que essa foi a melhor resposta. De forma alguma sou o melhor, mas quero ser respeitado como os outros são”, ressalta.

Troféu na mão. Apoio da irmã, Josiane, foi fundamental para garantir o sucesso na jornada (Foto: arquivo pessoal)

Agora, o objetivo é seguir em frente, rumo a projetos ainda maiores. “Duas semanas atrás ninguém diria que eu venceria essa prova, ainda mais de 300km… Acredito no meu sonho de ir para um mundial e vou canalizar todas as energias e amor pelo esporte para isso”.  Morador do distrito de Conceição do Formoso, o ultramaratonista é enfático: “Alguns acham que só pode acontecer com quem aparece na televisão ou mora na cidade. Somos todos iguais, de carne e osso. Não precisamos ser de ferro para ir para um mundial; basta acreditar nos sonhos, fazer por amor e ir à luta todos os dias. Estou feliz demais, não só por ser o primeiro a fazer o que eu fiz, mas por mostrar que os mais jovens também podem”.

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