Mães e pais corredores compartilham os desafios e aventuras da quarentena com os filhos. Psicóloga infantil dá dicas

*Reportagem: Priscila Oliveira

Os desafios impostos pela pandemia do novo coronavírus são inumeráveis, tanto do ponto de vista psicológico quanto pelos desafios sociais que esse momento de incertezas tão diversas impõe. Entre as delícias e adaptações do período está a permanência, por mais tempo, em família – haja vista o fechamento das instituições de ensino, a restrição ao trabalho e, para alguns, a manutenção do serviço direto de casa, no chamado home office. Na esteira desse “novo normal”, uma turminha ávida por atenção e divertimento tem exigido muito jogo de cintura e dedicação redobrada dos adultos, que precisam contornar as próprias preocupações para tranquilizar e oferecer o melhor ambiente possível para os pequenos. Assim como a grande maioria das mamães e papais de plantão, os corredores também tem se aventurado com seus filhos durante a quarentena.

‘Minha preocupação é não ficar doente’

Funcionária de uma conservadora, a servente de condomínio Jonimar Silva não teve nenhuma alteração na rotina de trabalho. Por isso, a filha mais velha, Ana Carolina (24 anos), se divide com a do meio, Sarah Cristina (18), para manter a pequena Rebeca Helena (8) na ativa enquanto a mãe está fora. “Meu trabalho é tido como essencial, por ser limpeza. Então, estou trabalhando normal. Mesmo assim, tem sido complicado, porque, como as três estão em casa, as brigas entre elas são inevitáveis, embora a diferença de idade seja grande. O que facilita um pouco é que moro em residência, então, dá para elas brincarem no terraço e inventar várias coisas”, revela.

Servente de condomínio, Jonimar Silva continua trabalhando normalmente. No tempo livre, ela gosta de cantar, assistir televisão e conversar com as filhas Ana Carolina, Sarah Cristina e Rebeca Helena (Foto: arquivo pessoal)

Jô, como é chamada pelos amigos, se orgulha do cuidado das meninas mais velhas com a caçula e da criação que deu a elas, praticamente sozinha. “As duas passam atividades para a menor, e sempre fico muito em cima de todas por conta de estudo, para que elas tenham uma profissão. A Ana faz magistério pelo Estado e está cursando Pedagogia à distância; a Sarah terminou o ensino médio e conseguiu passar no Pism para Serviço Social, e a Rebeca não está tendo nenhuma atividade da escola, exceto as que passamos para ela, inclusive de revisão das aulas”.

E os desafios não param por aí. “Infelizmente, não tenho como passar mais tempo com as três, porque também estou com meu pai internado e tenho ficado com ele em noites alternadas. Porém, quando estamos juntas, brincamos de cantar, assistimos televisão e conversamos bastante”, enfatiza. “Minha maior preocupação, no momento, é não ficar doente, pois o psicológico da gente fica muito ruim. Não quero levar para elas, nem para dentro de casa, nenhum problema de saúde. Então, uso máscara, passo álcool em gel e tomo os cuidados necessários para evitar a contaminação. No começo até foi pior para fazer minha pequena entender que eu só posso abraçá-la depois do banho tomado, mas agora ela aceita melhor”.

Na casa do Márcio e da Sabrina, o esforço é para entreter os pequenos Miguel e Lara, de 10 e 6 anos. Entre as atividades favoritas estão os jogos de tabuleiro (Foto: arquivo pessoal)

‘Gostamos de ficar em casa, mas não obrigados’

Analista de controle de qualidade numa indústria farmacêutica, o corredor Marcio Roberto Silva (AscorJF) também continua trabalhando normalmente. Ao lado da esposa, Sabrina, ele forma uma bela família com o primogênito Miguel, de 10 anos, e a caçula Lara, de 6. “Temos o privilégio da Sabrina poder cuidar das crianças. Ainda mais agora… Mesmo sem aula, elas continuam estudando em casa. Eles acordam, minha esposa passa atividade e os dois estudam até a hora do almoço. Depois, inventam alguma coisa para fazer. Os dois leem muito, brincam de totó e pingue-pongue, assistem muitos desenhos, gostam muito de ver documentários e jogam videogame nos finais de semana”, pontua.

Jogos de tabuleiro, cara a cara, jogo da verdade e bingo estão na lista de diversão do quarteto. Porém, a permanência forçada em casa tem exigido bastante disciplina. “Apesar de gostarem de atividades caseiras, as crianças também gostam muito de interagir com as pessoas, nas nossas corridas, por exemplo. Eles amam ir! Gostam de sair de casa, de estar com os amiguinhos da escola etc. Por mais que tenham o que fazer, estão ficando entediados pela falta de ver gente. Eles estão totalmente isolados; a gente não arrisca sair com os dois para nada, principalmente porque o Miguel tem muito problema respiratório – asma, bronquite. Ele até faz natação por conta disso, e está sentindo muita falta. Evitamos ao máximo qualquer exposição ao vírus”.

Marcio encara o distanciamento social como um dos principais desafios trazidos pela crise da covid-19. “Não sei se ser corredor ajuda a ter mais energia nessas horas, mas estou muito triste de não ter as competições que a gente gosta de participar. De vez em quando eu saio à noite, que é mais vazio, e corro na beira do rio. Não parei totalmente de correr, e temos uma pequena academia montada no nosso porão. Então, dá para se exercitar. Também acompanhamos as lives de educação física – as crianças, às vezes, até fazem junto. Mas, a maior falta é de mobilidade mesmo. Gostamos de ficar em casa, mas por opção, e não por obrigação”, ressalta.

Às vésperas de completar 7 anos, João Rafael é o fiel escudeiro da Bianca – inclusive, nos treinos online (Foto: arquivo pessoal)

‘Um dia de cada vez’

Para a dentista Bianca Oliveira (Team Denise Machado), as atenções estão voltadas para o pequeno João Rafael, que completa 7 anos em junho. “Esse período de pandemia tem sido de grandes desafios. Estamos em casa praticamente o tempo todo e conseguindo lidar com a situação de uma forma equilibrada, graças a Deus! O João é filho único, e estamos conseguindo ‘driblar’ a energia dele bem. Às vezes, vamos ao terraço jogar bola. Tem dias que fazemos os treinos online da equipe. Já levei ele algumas vezes ao sítio de uma amiga, para ele andar de bicicleta e pegar sol, mas sempre sem contato direto com outras pessoas, e ficamos somente nas áreas externas”.

E o condicionamento físico, como fica? “Meu maior desafio tem sido as aulas online. Nessas horas, dá para dar uma descabelada”, brinca. “Ele fica muito disperso e não se concentra, mas estamos caminhando. Um dia de cada vez. Sempre com esperança de dias melhores”, enfatiza. Veja a Bianca e o João treinando juntos!

Promoção do bem-estar infantil

Psicóloga infantil, a doutora Andressa Bianchi Gumier explica que as crianças são ótimas observadoras do que acontece à sua volta, podendo analisar como seus cuidadores estão se sentindo ou, até mesmo, ficando preocupadas em relação ao futuro, à sua segurança e a de seus entes queridos. Baseada nas recomendações da organização de pesquisa Child Trends, que busca promover a qualidade de vida de crianças e adolescentes através de estudos e evidências científicas, ela alerta sobre a necessidade de compreensão das diferentes reações que podem surgir diante do cenário de pandemia. “Algumas crianças podem ficar mais irritadas, outras mais inseguras. Algumas podem exigir um nível maior de atenção, outras podem ter comportamentos mais opositivos e desafiantes. É importante que o adulto tenha paciência para conduzir cada uma das situações que podem se apresentar”.

Fornecer informações apropriadas à cada idade, trabalhar o medo entre os membros da família, utilizar recursos virtuais na aproximação com entes queridos e manter uma rotina diária são essenciais (Imagem: Reprodução/Turminha da Psicoeducação)

A especialista reforça que todas as emoções são válidas e importantes. “Durante esse período, o medo pode ser uma emoção forte, tanto nas crianças quanto nos adultos. Aceitar a presença do medo é o primeiro passo para aprender a lidar de forma mais saudável com essa emoção. A partir daí, os cuidadores podem ajudar as crianças a se sentirem mais seguras, buscando estratégias e elementos do dia a dia que mostrem a elas que estão protegidas”, orienta. Para isso, é essencial fornecer informações adequadas à cada idade. “É importante que os adultos expliquem sobre o Coronavírus e as medidas de proteção. Dentro de uma linguagem apropriada e utilizando recursos lúdicos, como uma história, eles podem dizer o que é esse vírus e como fazer para ficar protegido. Podem deixar espaço para que as crianças perguntem, esclareçam suas dúvidas e digam como estão se sentindo diante de tudo isso”.

Idealizadora do projeto Turminha da Psicoeducação, ao lado da também psicóloga infantil Carolina Stersa, Andressa ainda chama atenção para a utilização de ferramentas virtuais na aproximação dos pequenos com familiares e amigos, através de videochamadas que podem agregar jogos de adedanha e forca, por exemplo. “Lancem mão da criatividade e ajudem as crianças a pensarem em brincadeiras interativas com quem está do outro lado da tela”, salienta. E faz outro alerta: é preciso manter uma rotina em casa. “Será diferente da que todos tinham antes, e é importante sermos flexíveis – isso não quer dizer que devemos viver todos os dias como se fosse ‘domingo’. Estabelecer uma faixa de horário para acordar e dormir, se alimentar e fazer atividades propostas pela escola, além de ter tempo livre para brincar e estar juntos, trazem mais segurança para os membros da família, porque garantem maior regularidade ao dia”.

CLIQUE AQUI para acessar todas as orientações da psicóloga infantil Andressa Bianchi Gumier.

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